“Nenhum país do mundo alcançou a igualdade entre mulheres e homens, nem entre meninas e meninos, e as violações aos direitos das mulheres e meninas ainda são um ultraje. Por isso, temos que aproveitar as lições aprendidas e a certeza de que a igualdade a favor das mulheres leva ao progresso de todas e de todos. Temos que avançar com determinação e coragem”, Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora executiva da ONU Mulheres.

Essa frase foi dita por Phumzile Mlambo-Ngcuka, no dia do lançamento da campanha #HeForShe (ou #ElesPorElas no nosso bom português).

Para quem não está muito inteirada no assunto, o movimento #HeForShe foi criado pela ONU Mulheres, como uma forma de união global para o envolvimento de homens e meninos na destruição de todos os meios sociais e culturais que impossibilitam  o desenvolvimento do real potencial feminino, sua liberdade e direitos. Homens e mulheres trabalhando juntos para modelar uma sociedade de iguais.



O projeto focaliza o papel fundamental dos homens em uma parceria pelos direitos das mulheres. Seria uma forma de empoderamento de meninos e homens para que mantenham as relações de gênero sem o acompanhamento de atitudes machista. De acordo com o próprio site da ONU Mulheres,  a voz dos homens é poderosa para difundir para o mundo inteiro que a igualdade para todas as mulheres e meninas é uma causa de toda a humanidade.

O movimento, quando lançado, tinha o objetivo de unir um bilhão de homens, no período de um ano, dispostos a difundir a igualdade de gênero através da participação masculina. Foi grande a aceitação, inúmeros personagens famosos se uniram a causa.

Entre os nomes de famosos que apoiam essa campanha, acredito que o mais conhecido seja o da atriz Emma Watson, embaixadora da boa vontade da ONU. Em seu discurso no dia do lançamento da camapanha, ela disse o seguinte: "Eu quero que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos tenham permissão para serem vulneráveis e humanos e, fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos".

Mas ela não é a única. Existem muitos outros apoiadores, como por exemplo:


Harry Styles

Chris Colfer
Fernanda Lima, Rodrigo Hilbert, Marcelo Tas e Astrid Fontenelle

Existem muitas controversas quanto a participação de homens na luta feminista. Eu mesma tenho uma opinião pessoal de que homens não são feministas, mas sim apoiadores. A participação deles é relevante sim, mas não os vejo como detentores do título "homem feminista".

O site da HeForShe mostra, no exato dia de hoje, o número 1.301.155,324, que indica quantas ações já foram alcançadas pela ONU. É possível acessar no próprio site todos os países em que essas ações ocorrem, assim como todas as categorias nas quais tais ações acontecem. Eles exploram questões relacionadas a educação, política, violência, trabalho, identidade e saúde.

Finalizando, convido você a conhecer mais sobre a campanha, assim poderá conhecer bem o porque de existirem pessoas que concordam e outras que discordam  dessa campanha. Depois volta aqui e me conte de qual lado você ficou, ok?
Já começa errado nessa imagem... (reprodução/internet)

Este é um texto de opinião. Ele representa a visão pessoal da autora do post, e não se trata de um consenso dentro do feminismo.

Ser homem em uma sociedade patriarcal é viver cercado de privilégios. Privilégios esses que são conferidos, via de regra, às custas da opressão sobre mulheres. E entre os vários direitos historicamente negados ao sexo feminino e cedidos ao masculino está a voz.

Homens estão acostumados a serem o centro de tudo, inclusive dos discursos. Enquanto isso às mulheres só restava (e quase sempre ainda resta) ouvir e acatar. Até mesmo durante a primeira onda feminista, quando as mulheres começaram a se posicionar e a lutar por seus direitos, os homens chegavam a projetar nelas seus próprios interesses.

E até hoje temos que ver homens que tentam a todo custo reivindicar o protagonismo da luta feminista. Será que é tão difícil assim ver o quanto isso é injusto? É uma tentativa de fazer a manutenção de um sistema opressivo, centrado no homem, dentro de um movimento que visa a libertação e a autonomia da mulher. Isso acaba apenas reforçando a incapacidade desses indivíduos de abrirem mão dos próprios privilégios.

Não é justo que homens queiram falar pelas mulheres, não é justo que homens não ouçam as mulheres, não é justo que homens queiram "igualdade" apenas quando se sentem prejudicados pelo machismo, enquanto não dão a mínima para as mulheres realmente vitimadas, inclusive por eles mesmos.

"Então qual é o meu papel como um homem no feminismo?" "De forma simples, seu papel é ouvir as queixas femininas, questionar seu privilégio masculino e se responsabilizar por outros homens" Olha aí, tá até desenhadinho (reprodução/internet)

O papel do homem no feminismo é de ouvinte. Ele só deve ser ativo na própria desconstrução (que já é um trabalhão, por sinal, que nunca acaba), no máximo na dos seus iguais. Ainda assim, quando um homem quer desconstruir o outro, é mais justo que ele o faça também ouvir as mulheres.

Reconhecer os próprios privilégios e fazer o máximo para não reforçá-los é como os homens podem contribuir para o feminismo. Mas se eles não forem capazes nem de ceder a uma mulher um pouco da voz que eles sempre tiveram, também por privilégio, como esperam fazer o resto?

PS: pesquisando por imagens para ilustrar este post, acabei achando este texto, excelente. Vale a leitura. Clique aqui para acessar.
Reprodução/internet

Eu sempre gostei de histórias de amor, em todas as suas formas. Meu TCC foi sobre isso, aliás. O resultado não me agradou, mas definitivamente não me arrependo da escolha do tema. Talvez seja meu sol em Câncer falando alto, mas acho que não é só isso que me liga a esse sentimento. Também há o fato dele carregar em si o significado de ser humano.

E sim, eu incluo aqui o tal "amor romântico". Não entendo por que as pessoas não conseguem ver seriedade e importância em histórias assim. Seres humanos são feitos de carne, osso e sentimento. São eles que nos movem, que nos mantém no lugar. E o amor está lá, entre eles.

Criou-se um esteriótipo de futilidade sobre histórias de amor. E, claro, a quem todas as coisas fúteis são relacionadas? Mulheres, claro. Não sei ao certo qual a causa e a consequência, mas tenho certeza que as duas coisas estão erradas. Sentimentos não são fúteis nem exclusividade de mulheres (que são menos fúteis ainda).

E por isso algumas mulheres se recusam a falar de amor, como se fossem fracas se o fizessem (e não as julgo por isso). Mas eu, ao contrário, continuo falando. Não quero deixar de ser ligada a sentimentos porque as pessoas os consideram vazios, e sim que as pessoas possam enxergá-los em sua completude.

E este post (escrito meios às pressas e com uma inspiração meio vaga) acabou me lembrando da imagem abaixo. É uma mensagem tão forte, tão bonita... Acho que é por isso que gosto tanto principalmente de histórias de amor entre duas mulheres, inclusive são as que mais gosto de escrever. Porque se amar é sobre ser humano, amar de forma revolucionária é sobre( )viver.

Imagem: facebook.com/devaneioscomcanela/
(Reprodução/internet)

Já faz algum tempo que eu venho reparando em uma coisa quando ouço alguma história de traição masculina. Se o caso é de reincidência ou traição constante, quase sempre alguém fala algo como “eu não sei por que ele não termina. Deve ser pela segurança de ter alguém ali sempre”.

Já ouvi isso de amigos do cara, conhecidos, da traída (neste caso, no passado), e principalmente da pessoa com quem ele traiu (não cabe julgamento aqui, mas vou linkar um bom texto do blog Mandy Francesa sobre isso). Pode mudar o locutor em alguns aspectos, mas o cerne da fala é sempre o mesmo.

Mas é algo que me incomoda tanto, mas tanto, que eu sinto até uma certa raiva sempre que ouço (ou leio) isso. Não necessariamente da fala ou de quem a proferiu (às vezes, sim), mas sempre do cara. Porque se tem alguém por quem eu não sinto a menor compaixão nessa história, esse alguém é o cara.


Sim, a esse nível

Nós fomos ensinados (e principalmente ensinadAS) a sempre justificar as ações masculinas. Se não assumiu um filho é porque não estava preparado para ser pai, se tem ciúmes excessivos é porque ama demais, se vacila com a namorada é porque ela deu margem. E não é diferente no caso da traição.

São inúmeras as justificativas: “é o instinto masculino”; “não deu assistência, perdeu pra concorrência”; “o ser-humano não deveria ser monogâmico”; “ela o pressionava demais, ele precisou extravasar”... Até o famigerado “homem não presta, mesmo” acaba ficando mais ao lado deles que nosso: se homem é assim mesmo, nos resta aceitar.

Mas esse caso em específico, do cara que “não termina por segurança”, não apenas é uma dessas justificativas que tentam isentar o homem de culpa, como é machista por si só. Ele não apenas trai, como o faz por um motivo opressor. Repare: aqui o que se justifica não é a traição, mas o fato dele manter o namoro.

E manter um namoro por conforto pessoal é opressor. É tratar a mulher como propriedade, como “estepe”. Prender uma mulher a uma relação que ela acredita ser recíproca, sincera e saudável, enquanto tudo que ela representa para você é estabilidade, chega a ser cruel. E sim, é muito machista.

E isso não acontece só com traição: a maioria de nós tem, já teve, é ou já foi aquela amiga que virou “peguete fixa” de um cara, mas que só é procurada quando ele não consegue ficar com mais ninguém. Ele nunca rompe o vínculo com ela porque precisa de uma “garantia”. A mulher, por sua vez, muitas vezes acaba continuando na situação, também por insegurança. Mas enquanto a insegurança dele o beneficia, a dela a prejudica.

E por que essa situação é machista? Porque uma sociedade patriarcal ensina homens a buscarem a satisfação pessoal e colocarem o interesse das mulheres em segundo (ou terceiro, ou quarto, ou quinto...) lugar. O prazer do homem vem em primeiro lugar. Isso, aliado à objetificação feminina com a qual estamos acostumadas a conviver, cria homens que não são apenas traidores, como egoístas e covardes.
Reprodução/internet
Este post pode soar um pouco desatualizado, haja vista que a notícia que o motivou já tem umas boas semanas. Mas a reflexão que ela me trouxe ainda é bem pertinente. O negócio é que eu fiquei sinceramente com medo quando soube que As Caça-Fantasmas deu prejuízo nas salas de cinema.

Antes de tudo, é preciso entender o significado desse filme. E, principalmente, seu papel como símbolo. Versão "gender bender" (de gêneros trocados) do clássico pop dos anos 80, As Caça-Fantasmas pode até não ser uma obra genial - o original também não é -, mas já pode ser considerado corajoso por ser assumida e propositalmente representativo.

E sob uma máscara de nostalgia que mal disfarça o motivo real (dica: machismo),  grupos boicotaram a produção desde antes de seu lançamento. Olha, de fato nem eu gostei muito do primeiro trailer lançado, mas "gosto" definitivamente não é explicação o bastante para que ele tenha batido recorde de avaliações negativas no YouTube.

Isso tudo, aliado à propagação em massa do clássico "nem vi e sei que é ruim" fizeram a película passar quase instantaneamente no Teste da Furiosa. Aquele que mede a qualidade/representatividade de uma produção baseado na fúria (sem trocadilho) dos machistas na internet (leia sobre ele, em inglês, aqui).

É isso (e boicote) que machinhos fazem quando descobrem um filme que não foi feito para eles

Mas, diferentemente de Mad Max: Estrada da Fúria, o boicote dessa vez parece ter dado efeito - ou pelo menos é essa a impressão que ficará para muitos. E é justamente por isso que eu tenho medo. Temo duas fortes - e péssimas - possibilidades: ou os haters se sentirem responsáveis e consequentemente mais encorajados para novas investidas, ou os grandes produtores se sentirem acuados e diminuírem os avanços que já tivemos nesse aspecto. A antes confirmada sequência de As Caça-Fantasmas, inclusive, já foi posta em xeque, como dito na matéria que gerou este post.

A gente sabe bem como funciona o mercado. Tudo é feito visando o público e, principalmente, o lucro. Não dá para ser ingênuo de acreditar que o crescimento de produções representativas e/ou empoderadoras foi meramente por ideologia. O que houve foi um crescimento da projeção do público preocupado com essas questões, que passou a ser visto como expressivo, ao ponto de provocar mudanças.

Mas se os haters e machistas começarem a ser vistos como uma parcela significativa do público, as coisas podem se complicar. Porque se tiverem que escolher entre agradar o público desconstruído (promovendo mais desconstrução, aliás) ou o dinheiro, é óbvio que sempre ficarão com a segunda opção.

Isso pode até parecer desmotivador, mas eu acredito que só reforça que não podemos parar de reivindicar e fazer nossas vozes valerem. Não foi ficando caladas no cantinho em que nos colocaram que conseguimos começar a mudança.

Ao contrário do que tentam alegar, até nosso "textão de Facebook" já fez e continua fazendo diferença. Mas ele de fato não é o bastante. Nossas reclamações e manifestações nos fazem sermos vistas como público em potencial, mas não como efetivo. E é exercendo os dois papéis que conseguimos alguma coisa. E, no final das contas, faz mais sentido focarmos nossas energias (e nosso dinheiro) em produções que se alinham com nossos ideais, né?

É mostrando a que viemos que conseguimos resultados
E é claro que eu não estou falando de simplesmente encher os bolsos de grandes produtores como "prêmio" por terem se adequado a novas tendências. Nem mesmo falo de sair assistindo o que não nos agrada só por ser representativo. Mas, primeiro, eu incluo aqui também o incentivo aos pequenos e principalmente pequenas profissionais da arte e do entretenimento, que precisam ainda mais dele. Segundo que só de nos esforçarmos um pouquinho para prestigiar coisas que gostamos e TAMBÉM são representativas já estamos fazendo alguma coisa.

E por último, mas não menos importante: só se muda um mercado por dentro. E o primeiro patamar que alcançamos para mudar a indústria cultural é o do público. Sendo vistas como público "ganhamos" produções que podem, inclusive, despertar novas criadoras entre nós. 

Isso, aliado às nossas reivindicações por representatividade, só tende a aumentar o número de produtos escritos, desenhados, dirigidos, produzidos por mulheres. Vide os vindouros filmes da Mulher Maravilha e da Capitã Marvel e suas diretorAs. Aos poucos vamos ocupando novos espaços e promovendo exatamente a mudança que os haters não querem ver. E eles que se acostumem

A gente chega lá!



Antes de começar este texto, só quero deixar claro o quanto ele é baseado em mim. Sim, ele é baseado nas minhas vivências, com um cadinho de história envolvida e só quero te convidar e pensar. 


Antes de começar o Blog, sempre lutei e relutei em abordar moda, porque sim, porque para a maioria das pessoas moda é futilidade. Mas, assim como tinha esse receio, me veio a vontade de mostrar a quem eu pudesse que moda é muito mais do que esta camiseta que você veste neste momento. Toda roupa, cor, influência, tem o porquê de ser, mas, não é sobre esta questão técnica que quero falar, quero na verdade te convidar a pensar no quanto a moda pode libertar e aprisionar, no caso, nós mulheres.


A moda, mais do que estar nela, existe como parte de expressão pessoal. É você dizendo, em cada detalhe, quem você é, porque é, e logo, podemos tratá-la como resistência ou subordinação. Por mais que a gente tente, a todo o momento, resistir às opressões e a socialização, existem outras mulheres que sucumbem a elas, e pouco podem fazer a respeito. Não faz muito tempo em que a burca, por exemplo, não era obrigatória em alguns países de origem islâmica, e convido você a ler o post da Ingrid sobre isso, é só clicar aqui.


Ao mesmo tempo em que tentamos nos expressar, lutamos contra uma indústria totalmente machista e que nos divide entre padrão e não padrão. Uma indústria que vê nos tempos atuais, uma espécie de mude ou morra, porque nós, dentro da nossa cultura, não aceitamos o que querem que a gente aceite. Não aceitamos sermos chamadas de plus size, quando não usamos manequim 38, não aceitamos que certas peças de roupa, sejam para poucos, não aceitamos que expressões culturais sejam chamadas de brega. Nós também não aceitamos mais que nossos cabelos tenham que ser lisos, só para fazermos parte de um grupo. Não aceitamos, simples.

Ju Romano. Referência em moda, empoderamento, amor próprio e quebra de padrões.


A meu ver, além de uma forma fundamental de expressão, a moda torna-se resistência. Usamos o que queremos, porque queremos e nos aceitamos como somos, e a indústria de consumo tem que aceitar, são as nossas regras. Por isso, mana, amiga, irmã: afirme-se. Não tenha medo, use e abuse da moda, esteja nela se quiser, não esteja se for sua opção. Não se anule por nada e nem por ninguém. A parte mais deliciosa de ser moda é ser o que quiser, usar o que quiser, sem deixar de ser o que mais você deve amar: você!

Nota: Esse texto foi feito pela blogueira Rafaela Arnoldi, feminista e proprietária do blog de moda Diariamente.
Reprodução/internet

Estamos fazendo nosso primeiro aniversário! Entretanto, podemos dizer que o verdadeiro início foi há bem mais que um ano. O blog surgiu de uma ideia que, como nosso primeiro post já dizia, surgiu de um ideal. Esse ideal cresceu, tomou forma e se tornou o projeto que acabou virando também nossa paixão.

Não foi um ano estável, mas foi um ano maravilhoso, sim. Tivemos pequenos hiatos (e um enorme), mas sempre que voltávamos o orgulhinho batia no peito. Sentimos prazer em produzir os posts, e nos alegramos quando somos correspondidas.

Vimos nossa página ter um estouro de crescimento graças a um post “polêmico”, conquistamos parceiras maravilhosas, abraçamos novas autoras e demos um “até logo” a uma delas. Isso, inclusive, lembra que estamos providenciando novidades por aqui, mas que ainda são surpresa.

E vamos seguir em frente, sempre. Esperamos poder contar com vocês que já nos acompanham, e que possamos crescer cada vez mais. Obrigada por tudo, e parabéns pra gente!

PS: Nossa “data de nascimento” oficial é o dia 31/08/2016, mas consideramos nosso lançamento oficial o dia 06/09/2016. Isso porque foi a data do nosso primeiro texto literário, cerne do projeto, e da primeira publicação na página do blog.
                                                                            Foto: Divulgação

Escrevi esse texto porque estou cansada de ver gente romantizando depressão.
Vamos lá, depressão é uma coisa séria e não um capricho adolescente, e nem uma invenção para chamar a atenção.

As crises são terríveis a ponto de não permitir que a pessoa saia da cama, se entregue a choros  pouco a pouco perdendo a vontade de fazer qualquer tipo de atividade.

Aceitação e tratamento são o fundamental para a sua vida, a doença em si não te prejudicará em nada, mas o modo que você digere palavras alheias sim.

Não deve ser normal falar para uma pessoa que sofre desse mal que a culpa é dela, que tudo pode se resolver basta querer. Assim como um monstro de mil braços a depressão agarra as vitimas e as sufoca de modo que elas nem ninguém são capazes impedir.
Tenho depressão desde os 16 e sinto crises existenciais constantes, por muito tempo me senti pressionada achando que a culpa era minha, que precisava me render alguma forma, ser grata a minha vida ou simplesmente “parar de frescura” como todos a minha volta recomendava.

Meu recado não é para essas pessoas que por muitas vezes por falta de informação ou simplesmente falta do que fazer recomendam para que pessoas que sofram desse mal simplesmente o deixem pra lá e aproveitem a vida que tem. A única coisa que eu tenho a dizer a pessoas que rodeiam alguém que sofre com depressão é: cuidado com suas palavras, algo que não te fere pode soar brutal a esse alguém, tomar cuidado com as palavras ditas é o mínimo que você deveria ter aprendido com a tia do pré.

Pessoa como eu que possuem o diagnostico, precisam mais do que nunca acreditar em si mesmas, realizar o tratamento e por hipótese nenhuma deixar seu brilho se corromper com amarguras alheias.

A culpa não é sua, e você não tem controle sobre seus sentimentos e tão pouco sobre esse monstro que te rouba à vitalidade, você não precisa da opinião dos outros e tão pouco da pena de ninguém.

Você é bem mais que tudo isso e não precisa de boas palavras e tão pouco de más, só precisa da coragem de ser tudo que és, sem limites, ou mentiras, mas com devaneios, ânsias, amores e loucuras, como qualquer outro ser. Acredite no atual momento estamos todos inabitáveis.  
Cale-se, não pode sair por ai dando sua opinião.







Bem vindos ao meu mundo, no qual sou obrigada a ouvir essa frase todos os dias. As vezes dita com outras palavras, mas sempre com o objetivo de me manter calada.

Para aqueles que não me conhecem, sou uma garota de 22 anos que não tem medo das palavras. Trato as palavras como minhas amigas, pois elas o são. Elas me permitem expressar meus pensamentos, sentimentos e coisas que não seriam possíveis por outros meios. Elas me ajudam a construir o que desejo, sem nunca me julgar ou me repreender. Elas me fazem livre, para espalhar alegrias, compartilhar tristezas e dividir frustrações.

Mas as pessoas, essas tem medo das palavras.

Medo de que suas palavras as joguem contra elas mesmas. Medo que palavras alheias joguem outrem contra elas. Medo de usar palavras erradas. Medo de usar as palavras certas demais.

Esse receio todo faz as pessoas pensarem muito em suas palavras quando só as deveriam dizer. As palavras se tornam sua prisão. E talvez por estarem presas, as pessoas supõe que o mundo seria melhor se não apenas uma ou outra pessoa estivesse trancada dentro de si mesma, mas que todas estivessem em igual posição.

Mas por ser amiga das palavras, por ter sua compreensão, apoio e ser empoderada por elas, não sou capaz de atender a tal pedido. Não sou capaz de pensar demais sobre elas. Não sou capaz de editar meus pensamentos e sentimentos. Não sou capaz de frustrar a mim mesma e as minhas palavras para agradar a outrem. Não sou capaz de não ser eu mesma.

Em um passado distante, eu mesma não me entendia com as palavras, as pensava demais, as guardava demais. Mas percebi que ao permitir que elas fossem livres, quem estava livre era eu.


Nathalia Lourenço


Imagem/Internet


Segundo o Ethnologue, que mantêm um catálogo de todos os dialetos do mundo, existem mais de 6.000 línguas faladas em nosso planeta.

Já podemos imaginas (concluir) que a maior parte desses dialetos está se perdendo.

Esse é o caso do idioma da tribo Wukchumi, situada no Condado de Tulare, na Califórnia. Atualmente a tribo é composta por cerca de 200 membros, e apenas uma deles, a Marie Wilcox, é fluente na língua nativa da tripo.

Na verdade, ela ERA a única. Juntamente com sua filha, Jennifer (que aprendeu o idioma com a mãe), Marie criou um dicionário com o dialeto do seu povo para que ele [o dialeto] não se perca na história.

Marie e Jennifer


Marie fala que tem duvidas sobre a perpetuação do seu idioma nativo, pois muitos não parecem se importar ou querer aprender. Mas sua motivação se mantem forte, pois ela e a filha ensinam a língua para os outros membros da tripo, além de estarem criando a versão em áudio do dicionário.

Para quem quiser conhecer melhor Marie e o trabalho que ela criou em sua tribo, a Global Oneness Project produziu o documentário Marie's Dictionary que pode ser encontrado no Youtube ou no próprio site da Oneness Project.


Há dias em que ecoo esta frase quase como um mantra. Gosto de acreditar na ilusão de que tudo tem um destino porque querendo ou não, de certo modo é reconfortante você pensar que não pode fazer nada pra mudar o que te acontece.



Mas hoje me peguei reflexiva... Vi que uma amiga que namorava há anos, já tava até morando junto, terminou o relacionamento. É engraçado que fico mais em choque que os próprios envolvidos. Poxa, eles pareciam combinar tanto, pareciam que ficariam juntos para sempre... Quem poderia imaginar?! Afinal, será que alguma coisa é realmente pra ser? Será que não estamos perdidos no limbo do acaso? Será que tudo não passa de mera coincidência? Não encontrei resposta.



Sempre que não tenho respostas imediatas para os questionamentos de gêmeos com ascendente em câncer o papel e a caneta são meus melhores amigos. E escrevendo agora percebo que talvez nada seja “para ser”, mas tudo seja para CRESCER.


Nunca tinha pensado por esse ângulo e de repente todos os acasos fizeram sentido. Cada pessoa, cada dia, cada queda... Enfim, tudo que acontece na nossa vida pode até não vir a ser obra de um destino ou coisa do tipo, mas sem sombra de dúvidas é o que faz a gente aprender a lidar com essa tal de vida. A gente sempre espera pelo amanhã... Haverá? Vamos viver e amadure[ScER].


Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!
Reprodução/internet
Este é a o primeiro post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor.

Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes preferidos, e sem dúvida o mais icônico da maravilhosa Audrey Hepburn. Eu me encantei por ele pela primeira vez aos 17 anos, e foi justamente nessa época que surgiu o meu amor pela atriz.

Entretanto, por mais que então eu não me atentasse tanto aos detalhes, é inegável que a produção possui, sim, alguns problemas. O mais explícito e exaustivamente apontado se trata do yellowface feito pelo ator Mikey Rooney, intérprete do japonês caricato Sr. Yunioshi. O personagem faz uma representação completamente negativa dos orientas: racista, estereotipada e como um mero alívio cômico.

Mikey Rooney como senhor Yunioshi (reprodução/internet)

As cenas em que ele aparece, inclusive, são totalmente descartáveis. O que só aumenta a sensação de que era um erro “evitável”. Lógico que não dá para cair no anacronismo: em 1961 as preocupações atuais com representatividade simplesmente não existiam. Mas isso não anula e nem mesmo diminui ou justifica o erro. No máximo o explica e contextualiza.

Um comparativo: o mesmo filme traz um ator espanhol (José Luis de Vilallonga) como um personagem brasileiro. Primeiramente, tal fato é recorrente ainda hoje. Vide a mesma troca feita em Comer, Rezar, Amar (2010), onde Javier Bardem também interpreta um brasileiro, e o recente caso do Wagner Moura interpretando o colombiano Pablo Escobar. E, mas importante ainda, apesar de pecar em representatividade, o personagem não é caricato ou ofensivo. Sr. Yunioshi é isso tudo, com o adicional da prática do yellowface, o que aumenta o absurdo.

Villalonga em Bonequinha de Luxo (reprodução/internet)

Apesar de ser o mais famoso – e óbvio –, esse não é o único ponto do filme que pede reflexão. No que diz respeito à trama em si, há dois pontos que eu queria destacar. Um deles é meio baseado em “achismo”, porque eu ainda não tive oportunidade de ler a novela na qual o filme se inspira para tirar melhores conclusões. Mas pelo que sei, comparada à obra original de Truman Capote, a versão cinematográfica pode ser considerada meio medrosa.

Como tantas adaptações da época, a película deixou de lado alguns aspectos considerados polêmicos e/ou pesados do livro. Como, por exemplo, a sexualidade dos protagonistas: Holly seria supostamente bissexual, e Paul/Fred, gay. Isso tudo não apenas tornou Bonequinha de Luxo menos representativo, como menos subversivo – e mais despretensioso.

O outro ponto, e provavelmente o que eu tenho mais dificuldade de admitir, faz parte justamente da mensagem do filme. Não custa nada avisar sobre spoilers (mesmo sendo de algo de 55 anos), já que vou citar mais detalhes, inclusive o final. Holly é uma personagem complexa. Dá para dizer que ela esconde muitas características através de seus opostos: insegura, mas se faz de forte; profundamente ligada ao irmão, mas age como desapegada; indecisa, mas se enche de planos mirabolantes.

Mas nada disso a torna uma personagem fraca, pelo contrário. E, apesar de muitos desses opostos serem usados como casca, alguns são naturais. Como o seu espírito livre, a despeito de sua vontade de encontrar seu lugar. Essa liberdade a faz fugir de Paul até o final, quando ela finalmente se rende e os dois ficam juntos. A mensagem que fica é que, assim, ela encontrou seu lugar.

Talvez isso não fosse tão incômodo se não desse a sensação de descarte do diálogo que os dois têm na cena anterior (imagem abaixo).

Paul: Holly, eu estou apaixonado por você
Holly: E daí?
Paul: E daí? Tudo! Eu amo você! Você pertence a mim.
Holly: Não. Pessoas não pertencem umas às outras.
Paul: Claro que elas pertencem!
Holly: Não vou deixar ninguém me colocar em uma jaula!
Paul: Eu não vou colocá-la em uma jaula! Eu quero amá-la!
Holly: É a mesma coisa!

Holly acredita que o amor é uma prisão. Não há nada entre esse diálogo e a cena final que realmente demonstre que ela mudou esse pensamento. A sensação que fica é, ao contrário, que ela escolhe abdicar da própria liberdade em prol desse amor. E é um pouco decepcionante que uma personagem tão interessante e, principalmente, livre, abra mão de algo tão importante para ela, bem... por um homem. Talvez se houvesse algo mais claro que demonstrasse que ela passou a enxergar o amor de outra forma, o final não passasse essa sensação. Mas da forma como foi apresentado, infelizmente é isso que fica.

Mas, hei, eu ainda amo esse filme. Enxergo suas falhas, mas não deixo de amá-lo. E, aproveitando a oportunidade, quero fazer o inverso nesse último parágrafo e apresentar uma “contra-crítica”. Eu sempre vejo a Holly sendo incluída nas listas de Manic Pixie Dream Girls do cinema (como você vê aqui, em inglês), e não consigo concordar. MPDG são personagens femininas “maluquinhas”, sem muito pano de fundo, com defeitos "adoráveis" e que só servem de motivação para um pobre e infeliz protagonista masculino. Exemplos clássicos: a personagem que fez surgir o conceito, Claire (Kirsten Dunst), de Elizabethtown, e Allison (Zooey Deschanel), de Sim, Senhor.

Claire e Alisson (reprodução/internet)

Eu não vejo sentido nessa classificação. Na verdade, várias personagens da Audrey o são, mas não vejo a Holly assim. Tanto pela complexidade da personagem, que eu já apresentei, quanto pela sensação de que, na verdade, Paul é o personagem raso da história. Holly tem pano de fundo, defeitos de verdade e muda ao longo da trama. Já Paul permanece praticamente o mesmo do começo ao fim. Ele no máximo tem bons momentos com Holly, mas não sofreu realmente nenhuma grande transformação. Isso, se pararmos para pensar, quem passou foi ela. Seria Paul, então, um Manic Pixie Dream Boy? Algo a se pensar...

                                                        Foto: Reprodução/internet


Nunca imaginei que sentiria uma paixão arrebatadora, até porque sempre liguei coisas do coração com perda de autonomia e razão, mas o tempo passou (impressionantemente de modo muito rasteiro) e eu me deparei com uma pessoa que roubou completamente meus pensamentos insanos e as minhas risadas escandalosas.
Meu medo da entrega podou com que eu me entregasse e eu relutei de todas as maneiras que pude, mas cheguei à conclusão de que estaria fazendo pior merda se deixasse o fulano sair da minha vida por não ter certeza do que realmente é amar.
Com o tempo de relacionamento percebi que não precisava abrir mão de nada para se amar, vi que era possível ser de alguém sendo completamente minha, e percebi que estava entregue a uma paixão saudável que me fazia amadurecer e preenchia a minha vida com uma magia que a solidão nunca tinha sido capaz de fazer.
Foi então, em um domingo à noite enquanto fazia uma retrospectiva da minha vida e escolhas que resolvi escrever esse texto para mulheres que pensam exatamente como eu pensava.
Querer ficar sozinha é algo completamente válido e normal, até porque ninguém será capaz de te fazer feliz se primeiramente você não for capaz de se fazer feliz, mas dai até abrir mão completamente de viver algo intenso e verdadeiro com um alguém pode (e vai) te render muitos arrependimentos futuros. 
Dividir suas historias, loucuras, devaneios com alguém que saiba valorizar cada uma dessas coisas é uma verdadeira delicia, olhar nos olhos dessa pessoa e saber que ela admira cada qualidade sua, e apesar de conhecer os seus defeitos está disposto a viver contigo tudo que tiver que viver.  
Por esses e outros motivos, percebi que o verdadeiro sentimento que faz com que você comece uma relação com alguém é aquele que não te impede de viver e sim aquele que te liberta, abre seus horizontes enquanto te faz sentir capaz de ser e fazer o que quiser no mundo.
O que prende, sufoca, intoxica e te impede de ser livre nunca deve ser rotulado como amor e tão pouco merece ser vivido.
O amor não te dá escolhas entre viver um romance ou uma carreira, não te obriga a formar uma família, e tão pouco dá palpite em suas roupas, comportamento, amizades.
 O verdadeiro amor te apoia, enche a cara contigo, e faz com que você se sinta livre para só assim sentir de verdade cada segundo da sua vida valendo a pena.




                                                          Foto: Divulgação



Há 127 nascia a poetisa e contista brasileira Cora Coralina. A Goiana que apesar de transbordar doçura, delírio e beleza em suas palavras só foi reconhecida após seus 70 anos quando teve seu primeiro livro publicado.
Aproveitando a data fiz uma seleção de cinco de suas dezenas de poemas maravilhosos, para quem já é apaixonado e para quem esta prestes a se apaixonar pela peculiaridade de suas obras únicas.


       1-     Mulher da vida
           Mulher da Vida,
            Minha irmã.
           De todos os tempos.
           De todos os povos.
           De todas as latitudes.
           Ela vem do fundo imemorial das idades
           e carrega a carga pesada
           dos mais torpes sinônimos,
           apelidos e ápodos:
           Mulher da zona,
           Mulher da rua,
           Mulher perdida,
           Mulher à toa.
           Mulher da vida,
           Minha irmã.


         2-    Meu destino
         Nas palmas de tuas mãos
          leio as linhas da minha vida.
          Linhas cruzadas, sinuosas,
          interferindo no teu destino.
          Não te procurei, não me procurastes –
          íamos sozinhos por estradas diferentes.
          Indiferentes, cruzamos
          Passavas com o fardo da vida…
          Corri ao teu encontro.
          Sorri. Falamos.
          Esse dia foi marcado
          com a pedra branca
         da cabeça de um peixe.
         E, desde então, caminhamos
          juntos pela vida…

    3-      Aninha e suas pedras
          Não te deixes destruir…
            Ajuntando novas pedras
            e construindo novos poemas.
            Recria tua vida, sempre, sempre.
            Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
            Faz de tua vida mesquinha
            um poema.
            E viverás no coração dos jovens
            e na memória das gerações que hão de vir.
            Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
            Toma a tua parte.
            Vem a estas páginas
            e não entraves seu uso
             aos que têm sede.


        4-    Amigo
           Vamos conversar
          Como dois velhos que se encontraram
          no fim da caminhada.
          Foi o mesmo nosso marco de partida.
          Palmilhamos juntos a mesma estrada.
          Eu era moça.
          Sentia sem saber
          seu cheiro de terra,
          seu cheiro de mato,
          seu cheiro de pastagens.
         É que havia dentro de mim,
         no fundo obscuro de meu ser
         vivências e atavismo ancestrais:
         fazendas, latifúndios,
        engenhos e currais.
        Mas… ai de mim!
        Era moça da cidade.
        Escrevia versos e era sofisticada.
        Você teve medo. O medo que todo homem sente
        da mulher letrada.
       Não pressentiu, não adivinhou
       aquela que o esperava
        mesmo antes de nascer.
       Indiferente
        tomaste teu caminho
        por estrada diferente.
        Longo tempo o esperei
        na encruzilhada,
        depois… depois…
        carreguei sozinha
        a pedra do meu destino.
         Hoje, no tarde da vida,
        apenas,
        uma suave e perdida relembrança.


        5-    Ofertas de Aninha
              (aos moços)
          Eu sou aquela mulher
           a quem o tempo
           muito ensinou.
           Ensinou a amar a vida.
           Não desistir da luta.
           Recomeçar na derrota.
           Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
           Acreditar nos valores humanos.
           Ser otimista.
            Creio numa força imanente
           que vai ligando a família humana
           numa corrente luminosa
           de fraternidade universal.
          Creio na solidariedade humana.
          Creio na superação dos erros
          e angústias do presente.
          Acredito nos moços.
          Exalto sua confiança,
         generosidade e idealismo.
         Creio nos milagres da ciência
         e na descoberta de uma profilaxia
         futura dos erros e violências
         do presente.
          Aprendi que mais vale lutar
          do que recolher dinheiro fácil.
         Antes acreditar do que duvidar.



Reprodução/internet
Quando gostamos muito de alguma coisa, muitas vezes acabamos tendo dificuldade para ver as suas imperfeições. É como quando estamos apaixonados por alguém, né? Pensando bem, é mais fácil ver os defeitos das pessoas que amamos (ainda mais quando eles irritam) do que ver os dos filmes, livros e séries dos quais somos fãs. E se os vemos, acabamos sentindo até uma dorzinha por aquela falha existir.

Dor e sofrimento (reprodução/internet)

Mas isso não deveria e nem precisa ser assim. Dá pra analisar  friamente uma produção e ainda assim ser fã dela. É difícil e eu sei bem disso, mas não são coisas desassociadas. Gosto pessoal e pensamento crítico, ao mesmo tempo que são idéias completamente diferentes, não são antônimos e podem andar lado a lado. Uma coisa pode inclusive complementar e contribuir com a outra.

E como eu falei, tudo bem ter essa dificuldade ou até sentir aquela dorzinha que eu já citei. Eu mesma ainda passo por isso. O problema é que muita gente simplesmente não consegue ver o pensamento crítico e o gosto pessoal dessa forma, e ainda não aceita que alguém veja. Ou acham que fãs devem idolatrar cegamente aquilo de que gostam, ou que seu gosto pessoal é uma regra absoluta, ou que, por ser só entretenimento, não podemos ficar "pensando demais" em vez de "só curtir" aquela coisa.

Não sei lidar... (reprodução/internet)

Nenhuma dessas hipóteses parece muito saudável. Não vou nem entrar no mérito da arrogância de achar que sua opinião é a única coisa importante no mundo, mas os outros dois exemplos acima têm problemáticas semelhantes. Tanto a ideia de "só curtir" quanto a de ser fã de algo sem questionamentos são alienadoras e, de certo modo, até ingênuas.

Produtos culturais possuem panos de fundo além daquilo que mostram, além de refletirem a sociedade em que vivemos. Uma produção cultural pouco representativa, que cria esteriótipos ou preconceituosa demonstra desinteresse dos produtores de fugirem disso e refletem uma sociedade que segue os mesmos moldes. Além do mais, como o nome já diz, esses produtos são feitos visando o lucro. E nós, como público, deveríamos ao menos parar para pensar em quem nós estamos enriquecendo (direta ou indiretamente) com os nossos gostos.

O pessoal da indústria já tá assim, aliás (reprodução/internet)

Pensando nisso e em outras coisas, decidi começar aqui no blog um projeto de exercício de pensamento crítico. Eu me englobo de verdade no grupo que "sofre" para ver defeitos nas coisas de que gosto. Por isso vou começar a fazer análises mais frias de produções das quais eu gosto muito e postar no blog. Será uma série,anão obrigatoriamente os posts serão feitos em sequência. E a ótica será dentro da temática do Elas por Elas (ou seja, feminista).

Vai ser duro? Vai. Justamente por isso vou tentar começar devagar, por coisas com as quais tenho menos apego e ir aumentando gradativamente. Assim eu tenho fé que vai dar certo. Quem sabe um dia não chego a falar mal de Harry Potter? -sqn

Enfim, espero que gostem dos próximos posts, e que eles ajudem quem tiver as mesmas dificuldade que eu a exercitar a visão analítica. Até o próximo post!
reprodução/internet
Esta é a quarta parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui. A segunda aqui. E a terceira aqui.

Estou entrando em terreno pedregoso com este post, eu sei.  Tanto pela amplitude do tema quanto por sua densidade. O fenômeno da sexualização infantil é muito complexo, o que dificulta um texto breve e recortado sobre ele, com o peso correto nas palavras. Mas vamos tentar...

Quando se fala em proteção às crianças, é importante lembrar que não apenas essa é uma preocupação recente, como o próprio conceito de infância só surgiu na idade moderna. E a sociedade ainda demorou alguns séculos para começar a se atentar a elas. Isso NÃO ameniza os males feitos no passado, mas nos ajuda a entender por que eles faziam parte de um assunto que era deixado de lado.

Hoje em dia, entretanto, ao mesmo tempo em que se fala muito disso, temos muito a melhorar. E uma das coisas que nossa sociedade ainda tem dificuldade de discernir é o conceito de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo que se repudia consideravelmente a sexualização de meninas de 11, 12 anos, ela também naturaliza e relativiza a objetificação e adultização de também meninas (sim, meninas) de 16, 17 anos. E isso pode ser exemplificado com um dos ships problemáticos mais antigos: a romantização de Lolita.

reprodução/internet

A personagem título, na obra original de Vladimir Nabokov, tem apenas 12 anos, algo chocante até para a época (1955). Em seu filme de 1962 baseado na obra, Stanley Kubrick, além de amenizar a sexualização e não mostrar o sofrimento de Lolita, teve de escalar uma atriz de 14 anos e aumentar a idade da personagem para passar pela censura.

A redução do impacto, no entanto, levou ao aumento da romantização. Lolita virou sinônimo para adolescentes provocativas e sexualmente atraentes, que ainda guardam aspectos da infância. E ironicamente é esse ar de criança (daqueeeelas mesmas que a sociedade jura querer proteger) que mais contribui para a criação de um fetiche sobre esse esteriótipo.

Mas a “lolitização” não é exclusiva como distorção da noção de vulnerabilidade, uma vez que o inverso também acontece. Se uma menina (inclusive de menos de 13 anos) possui feitios de adulta e uma suposta maturidade, já são depositadas sobre ela responsabilidades e expectativas de adulta.

E qualquer comportamento serve de gatilho para a adultização. Como esquecer o caso de Valentina, participante do MasterChef Jr, que virou alvo na internet por sua aparência, levando até à criação da campanha Meu Primeiro Assédio? O próprio fato da menina cozinhar já era visto como sinal de maturidade.


Uma parte do assédio sofrido por Valentina (reprodução/internet)

Lembrando que a própria sociedade também pressiona meninas a se tornarem mulheres, e então se aproveita dos resultados para responsabilizá-las. Se uma menina de 13 anos já procura se relacionar com meninos, da sua idade ou mais velhos, consideram que ela sabe o que faz e "dá conta do recado". Mas se uma menina da mesma idade se comporta como criança, a tratam como imatura (coisa que nem deveria ser um problema, ela é uma CRIANÇA).

Um exemplo curioso: colegas de elenco numa novela infantil, Larissa Manoela e Maisa Silva têm perfis diferentes e consequentes repercussões diferentes na mídia. Enquanto a primeira é considerada responsável pelas próprias ações e até chamada de “puta” por namorar desde os 12 anos, a segunda já teve que rebater críticas por se comportar e se assumir como uma criança.

Maisa inclusive não escapou do assédio (reprodução/internet)

Voltando aos ships, temos o filme O Profissional, de 1994. No roteiro original, o matador profissional Léon (Jean Reno), e a jovem Mathilda (Natalie Portman), de apenas 12 anos, viravam amantes. Apesar da alteração no resultado final, ainda é possível encontrar quem romantize a relação, tomando como base tanto o vínculo afetivo mostrado nas telas, quanto as ações mais adultas de Mathilda.

Cena de O Profissional (reprodução/internet)
Também dá para fazer um post especial só sobre a fetichização da relação professor-aluna, mas vamos simplificar com um exemplo. Uma das coisas mais lindas no grupo CLAMP é que todas as formas de amor valem. Uma das coisas mais problemáticas do CLAMP é que todas as formas de “amor” valem. E em Sakura Card Captors, no mangá, há um relacionamento entre a estudante Rika Sasaki e seu professor, Yoshiyuki Terada (mesmo ela sendo uma criança). Os dois chegam a ficar noivos.

Página do Mangá em que Yoshiyuki dá um anel de compromisso a Rika (reprodução/internet)

Indo para um universo mais fanon, temos os inúmeros ships feitos entre Hermione e adultos. Hermione/Snape, Hermione/Sirius, Hermione/Lupin, até Hermione/Dumbledore: tudo isso você encontra em fanfics por aí. A própria intérprete da personagem nos cinemas, Emma Watson, já se queixou sobre a sexualização que sofreu desde muito nova, reconhecida inclusive por seus colegas de elenco. E sua personagem passou pela fetichização e pela adultização forçada, o que inclusive contribui para a objetificação da atriz.

ME-DO. E dica: não pesquise sobre Hermione/Hagrid. Sério, não pesquise (imagens: reprodução/internet)
E como eu já falei inúmeras vezes nessa série, o grande problema da romantização de elementos problemáticos da ficção é justamente o reflexo que isso traz para a realidade. Desde a transferência da carga de um personagem para a atriz que o interpreta, até a naturalização de situações como as pelas quais passaram Valentina, Maisa e Larissa Manoela.

Em tempo: de algum modo essa série está me fazendo notar que Crepúsculo consegue se enquadrar em quase todos os tipos de ships problemáticos dos quais me proponho a falar. E para não dizerem que não citei dessa vez: Bella tinha 16 anos no primeiro livro, e Edward 114. Auto-explicativo? Espero que sim.